Entrevista a Beatriz Ferreira – Diretora da CMS Model WHO 2025

Terça-feira, Junho 24, 2025 - 17:46

Nos dias 21 e 22 de junho de 2025, a Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (FMUCP) acolheu a conferência CMS Model WHO 2025, a primeira simulação do modelo da Organização Mundial da Saúde realizada em Portugal. Conversámos com Beatriz Ferreira, diretora da conferência, que nos partilhou os bastidores, a missão e a importância desta iniciativa pioneira.

BEATRIZ F

Qual foi a importância da realização deste evento na Faculdade de Medicina da Católica?

“Foi um marco histórico para a Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa. A conferência CMS Model WHO 2025, organizada pela Associação CMS Model WHO em parceria com a United Nations Association (UNA) Portugal, na Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa (FMUCP), foi a primeira simulação do modelo da Organização Mundial da Saúde em Portugal. A realização deste evento na FMUCP representou um marco fundamental na promoção de uma formação médica mais global, interdisciplinar e comprometida com os grandes desafios da saúde mundial para a FMUCP.

Com participantes que foram estudantes universitários nacionais e internacionais de mais de 15 nacionalidades e de 4 continentes, esta conferência posicionou a Universidade Católica Portuguesa como pioneira em Portugal e no mundo na integração de projetos inovadores de ensino, reforçando o seu compromisso com uma educação médica centrada não apenas na excelência clínica, mas também na cidadania global e na liderança ética em saúde.

A CMS Model WHO 2025 colocou a FMUCP no palco global das conferências de modelo MUN (Model United Nations) e do modelo WHO (World Health Organization), em particular para o contexto médico. Estou segura de que promoveu o desenvolvimento de competências essenciais para os futuros profissionais de saúde da FMUCP, através da diplomacia, negociação e da capacidade de atuar em cenários complexos e multiculturais.”

Como surgiu a oportunidade de realizar este evento na Faculdade de Medicina da Católica?

“Esta iniciativa começou devido ao ambiente propício da FMUCP, que apoiou a criação da Associação CMS Model WHO Society em julho de 2024. Esta associação estudantil sem fins lucrativos, liderada pelo Francisco Afonso, atual presidente, e na qual mais recentemente assumi o cargo de vice-presidente, teve 40 membros estudantes da FMUCP que, conscientes da importância das conferências Model United Nations e Model World Health Organization na formação de profissionais de saúde completos e bem preparados, se uniram.

A associação teve como objetivo facilitar a participação dos estudantes da FMUCP em conferências internacionais e locais, enriquecendo o seu desenvolvimento pessoal e profissional.

Esta associação esteve comprometida com a missão das Nações Unidas e da Organização Mundial da Saúde, alicerçada nos valores dos direitos humanos, defesa da saúde, diplomacia, colaboração, compaixão, integridade, forte sentido ético, promoção da paz e profissionalismo, mantendo sempre uma posição apolítica e laica.

A oportunidade de organizar a CMS Model WHO 2025 surgiu da vontade conjunta entre a Associação CMS Model WHO, a FMUCP e a UNA Portugal de inovar no panorama da formação médica em Portugal. Inspirados pelo modelo das Nações Unidas (MUN) e pela crescente relevância da diplomacia, do multilateralismo e da cooperação internacional em questões de saúde pública, surgiu a ideia de criar uma conferência internacional que unisse o universo da medicina ao das relações internacionais.”

Este ano o tema foi “Ensuring Health Care Access in Zones of Conflict”. Qual foi a importância de trazer este tema para os alunos de medicina?

“Trazer este tema foi fundamental. Neste momento, o acesso aos cuidados de saúde encontra-se sob ataque e é um tema central na agenda da Organização Mundial da Saúde. Conflitos no Sudão, Palestina, Síria, Ucrânia, Iémen e muitos outros têm vindo a pôr em causa a universalidade do direito à saúde. Leva-nos a refletir — faço minhas as palavras do Diretor-Geral da Organização Mundial da Saúde, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus: ‘Peace is the best medicine.’

A discussão deste tema não devia ser restrita apenas aos alunos de medicina, mas envolver todos os participantes de diversas áreas, como medicina, direito, economia, enfermagem, relações internacionais, entre outras.

Ao explorar este tema, os participantes foram desafiados a representar os diplomatas de diferentes países na simulação da Assembleia Mundial da Saúde e a refletir sobre o papel fundamental que a diplomacia tem na resolução de conflitos que põem a saúde sob ataque.

Foi uma oportunidade única para desenvolver uma consciência global, entender a importância de construir consenso, compreender a forma como a Organização Mundial trabalha, como respostas humanitárias são construídas, e discutir como garantir cuidados de saúde em contextos onde o acesso é limitado — ou mesmo negado.”

O que aconteceu durante o evento? Quais foram os principais momentos e oradores?

“A conferência decorreu no fim de semana de 21 e 22 de junho de 2025.
Houve 50 participantes que tomaram a posição de diplomatas de países previamente atribuídos no comité da Organização Mundial da Saúde. Em sete sessões de trabalho, debateram os diferentes pontos de vista como autênticos diplomatas desses países, com o objetivo de negociar, construir pontes e redigir conjuntamente uma resolução que, na sessão plenária final, foi adotada por consenso, sempre tendo em conta as regras do modelo da Organização Mundial de Saúde.

Também tivemos uma cobertura jornalística feita por participantes que tomaram a posição de jornalistas, redigiram artigos, conduziram entrevistas aos delegados e realizaram uma conferência de imprensa no final do primeiro dia da CMS Model WHO.

Para além da parte académica, houve um programa social para relaxamento e diversão planeado para todos os delegados, com o objetivo de darem a conhecer a cultura e gastronomia portuguesas, como, por exemplo, nas festividades dos Santos Populares de Lisboa.

Na cerimónia de encerramento, no dia 22/06, pelas 15h, no auditório principal da FMUCP, contamos com a presença honrosa da Dra. Carina Ferreira-Borges, da Organização Mundial da Saúde, que coordena o programa de Álcool, Drogas Ilícitas e Saúde nas Prisões no Centro Regional Europeu.

Contamos também com a presença de Sua Excelência a Sra. Rawan Sulaiman, Embaixadora da Palestina em Portugal, e de Sua Excelência a Sra. Annick Josiane Capet-Bakou, Embaixadora da Costa do Marfim em Portugal.

Após os discursos finais, houve a entrega de prémios para os delegados que mais se destacaram durante a CMS Model WHO 2025, entregues por seis diferentes patrocinadores, destacando-se o Health Advocate Award, que foi atribuído pela FMUCP ao delegado que demonstrou um compromisso excecional com a defesa da saúde como direito universal durante a conferência, propondo soluções justas e exequíveis para os desafios globais de saúde.

Este prémio refletiu os princípios do quadro CanMEDS utilizado na formação médica no Mestrado Integrado em Medicina da FMUCP, que abarca o papel do médico como defensor da saúde, comunicador, colaborador, líder, académico e profissional responsável.”

O que significou para si fazer parte da organização deste evento?

“Fazer parte da organização da CMS Model WHO representou, para mim, muito mais do que apenas colaborar na criação de um evento académico. Significou contribuir ativamente para um projeto que nasceu de uma visão, abraçado por uma equipa extraordinária de pessoas dedicadas e talentosas, e do desejo de proporcionar aos estudantes da FMUCP e de outras instituições do mundo uma oportunidade única de crescimento pessoal, académico e profissional.

Organizar a CMS Model WHO desde dezembro de 2024 foi um exercício diário de trabalho em equipa, resiliência e capacidade de liderança.

Como diretora da conferência, senti um enorme orgulho em trabalhar lado a lado com Francisco Afonso, fundador da CMS Model WHO Society; Leonor Filipe, secretária-geral, que auxiliou na coesão de toda a equipa; Madalena Pires de Lima e Juliana Costa, que lideraram de forma brilhante a componente académica; Marta Brum Feijão e Lúcia Nogueira, que deram vida ao evento através do marketing; Maria Carvalho e José Russo, que criaram os eventos sociais que foram memoráveis; Francisca Rosas e Francisco Carvalho, que construíram parcerias essenciais; Ingrid Rodrigues, Marta Miguel e Joana Martins, que asseguraram com rigor toda a logística; 
bem como a Matilde Santos, Diretora-Geral da OMS na simulação, porque sem o seu trabalho árduo e de equipa não teríamos chegado à resolução final. Foi apoiada pelos Diretores-Gerais Adjuntos Alekzander Musk e Catarina Fonseca.

Um agradecimento especial também aos chairs — Rania Afifi, Joshua Karwofodi, Sara Ferreira e Derk Beemer — pelo trabalho exemplar na preparação para a moderação dos debates, e à equipa de jornalistas.

Nada disto teria sido possível sem o apoio imprescindível da equipa da UNA Portugal, que organizou connosco este evento, da FMUCP, que disponibilizou as suas instalações para acolher o evento, do Centro Académico Clínico - Católica Luz e de todos os nossos parceiros e patrocinadores.

Fazer parte desta organização foi também uma forma de retribuir à minha comunidade académica, criando um espaço onde os estudantes puderam experienciar o Modelo das Nações Unidas ‘em casa’, na FMUCP. Senti um enorme orgulho em ver a nossa equipa transformar um sonho em realidade e em contribuir para que o tema da saúde global — e, em particular, o acesso a cuidados de saúde em zonas de conflito — ganhasse a visibilidade e o debate que merece.”

Quais foram as principais conclusões do evento?

“Espero que a CMS Model WHO tenha proporcionado aos participantes uma experiência que evidenciou como os grandes desafios da saúde global exigem soluções colaborativas, inovadoras e alicerçadas no diálogo entre culturas e assentes no princípio da construção de consensos.

Para além do aprofundamento técnico, ambicionámos que este fosse também um espaço de criação de novas amizades e de fortalecimento do espírito de cooperação e respeito mútuo que está na base da diplomacia em saúde e da missão das Nações Unidas.

Como mencionado previamente, um dos momentos mais significativos do evento foi a redação conjunta de uma resolução, adotada por consenso segundo as regras do modelo da Organização Mundial da Saúde. Este documento será posteriormente apresentado à Direção-Geral da Saúde em Portugal e ao Centro Regional Europeu da Organização Mundial da Saúde, como forma de dar continuidade ao trabalho desenvolvido e de contribuir para o debate internacional sobre esta temática.

Por fim, espero que o sucesso desta iniciativa tenha reforçado o prestígio da Faculdade de Medicina da Universidade Católica Portuguesa, consolidando a sua imagem como uma instituição inovadora e comprometida com os desafios da saúde global.”