O que fazer com este … sangue?

Sexta-feira, Junho 12, 2026 - 16:12

Artigo por Professora Salomé de Almeida


O que fazer com este … sangue?

Ocorre-me muitas vezes. Eu tenho, tu podes precisar, ele precisa…

E nós? Somos responsáveis uns pelos outros. Por isso… e que tal dar um pouco de nós, algo que nos corre nas veias? Sim, vamos falar de Sangue.

Doar sangue, é possível? Porquê? E como posso fazer?

Não penses muito, segue esta linha de ideias e acreditamos que vamos conseguir cativar-te.

PROF SALOMÉ
Professora Salomé de Almeida

A. Sangue. o que é, porque é tão necessário

Desde que a memória se lembra que percebemos que o sangue é um bem importante, precioso, essencial. O sangue simboliza a vida e acompanha a vida de cada um, em todos os seus momentos, enchendo-se de novas características que garantem a sobrevivência e o equilíbrio.

A constituição do sangue é cada vez mais conhecida e compreendida. Mesmo assim, a ciência ainda não o consegue substituir como um todo, e a Medicina continua a necessitar dele para salvar vidas.

O sangue é formado por diversos tipos de células e por um líquido chamado plasma. Ambas as partes têm características e funções próprias.

As células dividem-se em Glóbulos vermelhos, essenciais nas trocas gasosas nos tecidos, Glóbulos brancos, responsáveis no combate a infeções e a agressões externas, e Plaquetas, que garantem, entre outras funções, a coagulação do sangue quando sangramos, e a cicatrização.

O plasma é formado essencialmente por água, minerais (eletrólitos), nutrientes e diversos tipos de outras moléculas (como hormonas, anticorpos, proteínas, que são fundamentais para regular, equilibrar, sinalizar e combater infeções ou agressões externas ao organismo). Circula por uma rede enorme de vasos (o sistema vascular), transportando os seus componentes até todos os tecidos do corpo. O sangue também recebe produtos residuais vindos dos tecidos, que são transportados até aos rins para serem eliminados pela urina. É também o sangue que transporta o oxigénio e recebe o dióxido de carbono, libertando-o nos pulmões.

Desde que a memória se perde que se sabe que não precisamos do sangue todo, que o estamos sempre a renovar, pelo que podemos dispensar um pouco, de vez em quando, e partilhar com quem precisa de alguns dos seus componentes.

Por cada dádiva, podem ser salvas até 3 vidas, pois o sangue doado é separado em glóbulos vermelhos, plasma e plaquetas, sendo cada um deles usado posteriormente para tratamentos específicos, nomeadamente em crianças e adultos com doenças crónicas, em pacientes com anemia ou leucemia, na sequência de acidentes, de complicações obstétricas ou até de cirurgias.

B. Como se processa

Doar sangue é um gesto simples e seguro, mas também é rigoroso, garantindo a proteção do doador e do recetor.

O doador passa por um processo de avaliação médica, responde a um inquérito sobre a sua saúde e os seus hábitos de vida, e realiza análises para identificar características próprias, como o grupo sanguíneo, e a presença de agentes infeciosos. Sim, porque o sangue também pode transportar vírus, bactérias e outros elementos capazes de provocar doenças em quem o receber. É obrigatório despistar um conjunto de doenças transmissíveis, incluindo a SIDA (síndroma de imunodeficiência adquirida, transmitida pelo vírus da imunodeficiência humana, VIH), hepatites e sífilis, entre outras.

A colheita demora cerca de 30 minutos. Após a colheita, o sangue é testado, separado nos seus componentes, preparado e armazenado até ser necessário. Caso seja detetada alguma infeção, ou o sangue não apresente as condições necessárias, este será descartado, garantindo a segurança do sistema e dos doentes, e informando o doador se for preciso.

Quanto ao doador, recomenda-se que descanse nesse dia, evite fumar nas horas seguintes, e beba muitos líquidos. O corpo recupera rapidamente e, se a pessoa for saudável e não tiver comportamentos de risco, pode doar sangue um máximo de 3 a 4 vezes por ano (para mulheres e homens, respetivamente).

C. Quem pode doar sangue

Quase convencido, imagino que sim. Mas atenção, há algumas limitações e recomendações.

Para doar sangue é necessário ter mais de 18 anos, um peso superior a 50Kg, ser saudável, não estar grávida ou a amamentar. Não pode estar doente nem ter realizado cirurgias recentes.

Algumas situações têm de ser avaliadas previamente pelo médico, como a medicação crónica e algumas condições físicas. Doenças oncológicas, hepatites B e C, doença de Chagas, doença de Creutzfeldt-Jakob, entre outras, são impedimento definitivo para se ser doador.

Alguns comportamentos são considerados de risco, como o consumo de drogas injetáveis e a manutenção de relações sexuais com pessoas portadoras de VIH, ou outras doenças sexualmente transmissíveis, tornando inviável a dádiva de sangue.

Outras situações deverão ser avaliadas, como a realização de tatuagens e piercings, sendo necessário aguardar pelo menos 4 meses para minimizar riscos de infeções.

Mas, claro, todas estas situações são questionadas e avaliadas, com rigor, cuidado e respeito. Dar sangue é um ato solidário, não pode estar associado com negócio ou com recebimento de dinheiro. E tem de correr bem para os dois lados, quem doa e quem recebe.

D. Mitos … de certeza que já ouviste conversas destas

Por vezes é difícil distinguir entre mitos e verdade.

Um dos mitos mais frequentes é a ideia de que doar sangue engorda ou emagrece – na realidade o corpo repõe rapidamente; ou que o sangue fica mais grosso ou fino – isso não acontece, a composição mantém inalterada.

Também é errada a ideia que ser vegetariano, ou até vegan, é uma limitação – na realidade bastará ter a certeza de que os níveis de ferro, hemoglobina, e alguns outros elementos, estão normais.

Atenção às viagens internacionais, algumas podem ter contraindicações. Por exemplo, destinos com malária, dengue ou Zika ativo podem exigir um período de espera de 28 dias a 6 meses antes de doar sangue

Certamente haverá dúvidas, e o médico é mesmo a melhor pessoa para responder a todas essas questões.

E. Porque é assim tão importante

 A doação de sangue é um elemento fundamental na saúde global. Os componentes do sangue são utilizados em diversas condições clínicas, e os procedimentos de doação, colheita, processamento e utilização/distribuição estão amplamente definidos em todo o mundo.

A OMS[1]  estima que cerca de 118,5 milhões de Unidades de sangue sejam doadas anualmente, 40% das doações ocorrem em países desenvolvidos (que constituem cerca de 16 % da população mundial). Por outro lado, nos países de baixos rendimentos, grande parte das doações são familiares ou pagas, o que pode aumentar o risco de doenças transmissíveis.

A OMS recomenda políticas nacionais de sangue baseadas em doações voluntárias, contínuas e seguras, além de promover a diversidade genética da reserva de sangue, atendendo às necessidades de grupos raros e específicos.

F. E então, quais são os procedimentos?

Convencido? Esperamos que sim.

Cada um de nós pode dar o seu contributo solidário, doar sangue e ajudar outras pessoas, permitir que a Medicina continue esta sua tarefa pelas vidas com saúde.

Em Portugal, a dádiva de sangue é coordenada pelo Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST). A doação em si pode realizar-se nos Centros Regionais de Sangue e Transplantação de Lisboa, Porto e Coimbra, nos Postos fixos de colheita, existentes em diversas Instituições de saúde, e nas Unidades móveis que percorrem o país regularmente. Toda esta informação está disponível e é amplamente divulgada nas redes sociais.

Doar sangue não custa quase nada. E o que recebemos é do Tamanho do Mundo!


[1] OMS – Organização Mundial da Saúde